Não. Você não leu errado. É isso mesmo: Shakespeare, em pleno século XVI escrevia para a internet! E com grande circulação!
Explica-se:
Há uns dois anos atrás recebi pelos correios uma mensagem de um amigo com um texto muito bonito (piegas, mas bonito) atribuído à Shakespeare. Movida pela curiosidade fui procurar saber de qual livro o texto havia sido extraído, ou de qual fragmento. Enfim, fui procurar a fonte do texto.
Não fui movida tanto pela curiosidade de ter em mãos o livro, mas sim pra ver toda uma obra shakesperiana escrita naquele... hmmm... "estilo".
E o resultado das minhas pesquisas? Óbvio! O texto só é encontrado na internet! E em nenhum dos locais onde ele aparece - integralmente ou trechos - a fonte é citada! Apenas o nome do suposto autor, e comentários miguxos da pior qualidade!
Resolvi ir mais fundo com relação à autoria do texto, pois ele tem que ter saído de algum lugar!
Eureka!
O texto original, intitulado "After A While" é de autoria de Veronica A. Shoffstall, em 1971.
No site "The Recovery Emporium" encontrei o poema original, com ©Copyright inclusive, e as seguintes palavras da própria autora:
.
"Author's note: This poem has been plagiarized, bastardized, renamed, reworded, redesigned, expanded and reduced. But it is my work, which I wrote at the age of 19 and had published in my college yearbook. Why anyone would want to claim it is beyond me, but for what it's worth, I wrote it, and if I'd known it was going to be this popular, I'd have done a better job of it."
.
Pra quem não lê inglês, ela diz:
.
"Esse poema foi plagiado, bastardizado, renomeado, reordenado, redesenhado, expandido e reduzido. Mas é o meu trabalho, que eu escrevi aos 19 anos e publiquei no meu livro do ano do colégio. Por que alguém gostaria de reclamá-lo é além de mim, mas a despeito disso eu o escrevi, e se eu soubesse que ele se tornaria tão popular, eu teria feito um trabalho melhor." (eu traduzi da melhor forma que o meu inglês permitiu!)
.Conforme Rosângela Aliberti, o texto foi atribuído a Shakespeare por causa de uma coincidência no último verso de umas das "n" versões que circularam, que diz:
"Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, senão fosse o medo de tentar."
Na obra "Shakespeare de A a Z: livro das citações" da editora L&PM (1999), Carlos Alberto Nunes traduziu o seguinte trecho:
.
"Our doubts are traitors and make us lose the good we oft might win by fearing to attempt." (Measure for measure, Act I, Scene IV)
por:
"Não passam de traidoras nossas dúvidas, que às vezes nos privam do que seria nosso se não tivéssemos o receio de tentar." (Medida por medida - Ato I - Cena IV)Alguma semelhança? Pois é. Não é mera coincidência.
Só acho uma pena não haverem mais sites e pessoas dispostos a desmentirem essas farsas literárias.
Pra encerrar, acrescento minha colaboração à obra de Shakespeare:
"Eu aprendi que kibar textos pela internet e fazer PPS com eles não é legal, e que mais cedo ou mais tarde alguém vai descobrir que ele não é meu. Então, vou reconhecer minha insignificância e junto com ela, a autoria dos textos que eu traduzo."
Até a próxima.






4 comentários:
amiga tá tudo muito lindo ...sempre um sucesso ...até...
camila baldon
por um instante eu até pensei que shakespeare era moderninho! com mario quintana (e milhoes de outros) fizeram a mesma coisa. ¬¬
o povo gooooooooosta...
Rebeca, eu estou com o mesmo problema, recebi um texto pela internet de autoria de Shakespeare e estou procurando e pesquisando e só encontro na internet. O título é Determinismo Genético e inicia assim:
Sempre que uma pessoa afirma, confiantemente, "eu sou assim...", note que ela está simplesmente procurando uma desculpa para um comportamento que ela própria sabe não ser o melhor... conhece algo sobre este texto?
Jeea, não conheço. Mande-me uma parte maior do texto por e-mail que pesquiso. rebeca.rbnr@gmail.com
Postar um comentário