domingo, 1 de março de 2009

Uma pseudo-história de amor nem tão impossível

(Atualização: To pensando em "arrumar" esse conto
e entrar pra um concurso de contos com ele. Que tal?)
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Então ela foi dormir pensando nele. Quando acordou, no dia seguinte bem cedo – mais cedo do que de costume – ela se sentia diferente, se sentia estranha. Olhou ao redor no quarto e tudo estava como ela tinha deixado antes de dormir. As roupas dependuradas nas costas de uma cadeira, por causa da preguiça de guardá-las, o computador desligado mas com o estabilizador ligado, por causa da preguiça de desligá-lo, os sapatos jogados no meio do quarto (eles sempre a faziam tropeçar). Levantou-se, abriu as cortinas e percebeu que o céu não estava mais nublado como no dia anterior. O céu estava claro. Limpo. O céu convidava a um passeio no quintal. Mas agora não.

Saiu do quarto ainda sonolenta, entrou no banheiro e, ao olhar no espelho, ela entendeu o que estava tão diferente. Ela não era mais “ela”. Ela era “ele”. Seu corpo era o de um homem forte, da mesma idade que a sua, tinha os cabelos cortados, ao contrário dos seus que eram compridos até a cintura, mas desalinhados, como deveriam ser sendo seus. Uma barbicha aparecendo, como de dois dias sem se barbear.

Não estranhou tanto o fato de ter dormido mulher e acordado homem. Durante muito tempo ela quis saber e sentir o que um homem sentia. Aproveitou sua nova forma para urinar de pé. Não achou lá grandes coisas. Pensou que os homens contavam tanta vantagem por não saberem como é bom acordar e sentar na privada, sem ter que preocupar-se em mirar lugar nenhum! Diante dessa idéia sorriu. A primeira coisa que iria fazer ao retomar sua forma feminina – se é que isso ia acontecer um dia – era contar vantagem de urinar sentada.

Café da manhã, procurar roupas que servissem, telefonar pro trabalho avisando que não ia. Depois de tudo isso, os seus pensamentos voltaram-se pra ele. Como era possível, estando num corpo de homem, ainda sentir e pensar como mulher? Não quis saber de muitas explicações. Precisava vê-lo.

Foi até a casa dele e esperou que ele saísse. Acompanhou-o de longe até o ponto de ônibus, e quando chegaram lá aproximou-se e puxou conversa:

- Bom dia!

- Bom dia... Disse ele, estranhando um pouco.

- Indo trabalhar?

- Sim. Errr.. Me desculpe... Mas eu conheço você de algum lugar?

Ele, como sempre, desconfiado e levemente mal educado.

Com um sorriso, ela respondeu:

- Acho que sim. Ou talvez eu esteja te confundindo. Você é o namorado daquela moça que mora no 379?

- Era eu.

- Ah... Vocês terminaram?

- Meu ônibus está vindo. Passar bem.

Ela ficou lá, vendo ele entrar no ônibus e ir embora. Quando já não podia mais vê-lo, virou-se e voltou pra casa. Não podia enxergar direito. Os seus olhos tinham lágrimas demais.

Entrou, deitou-se e chorou. Chorou até perder a noção de quanto tempo havia passado. E então adormeceu.

E da mesma forma que havia acontecido durante a noite, tornou a acontecer.

Quando acordou, decidiu enfrentar a realidade que ela sabia estar esperando. Foi lavar o rosto, e quando abaixou-se na pia seus cabelos compridos caíram na água. Tinha voltado a ser mulher.

A primeira coisa que fez foi ligar pra ele.

- Alô.

- Oi meu bem. Sou eu. Está trabalhando?

- Olá, querida! Sim. Mas posso falar. Aconteceu alguma coisa? Vejo que está me ligando de casa...

- Ah não... Só um pequeno mal estar. Podemos almoçar juntos hoje?

- Sim. Claro. Daqui quinze minutos. Pode ser?

- Naquele restaurante em frente ao seu trabalho?

- Sim.

- Então até já.

- Até.

- Te amo.

- ...

- Eu disse que te amo.

- Ah... Idem.

“Clic.”

Na hora combinada ela chegou no restaurante. Usava o seu melhor vestido de primavera, e o seu melhor sorriso. O que ninguém podia ver era o seu coração, que dentro dela estava partido em milhares de pequenos pedaços. Alguns deles ainda estava jogados pelo chão do seu quarto, ao lado do telefone, ecoando um “eu te amo” que não havia sido retribuído.

Esperou alguns minutos. Ele sempre se atrasava. Enquanto esperava pensou em tudo o que tinha acontecido naquele dia. Tudo tão estranho. Acordar sendo homem, conversar com seu amado e perceber que pra ele tudo havia acabado, voltar a ser mulher, ser tratada como se nada tivesse acontecido e, logo em seguida, ter a pior despedida possível. Ela não sabia o que esperar desse almoço, mas sabia que algo que ia mudar sua vida estava prestes a acontecer...

***

Ele chegou, deu um beijo em sua testa, sentou-se e pediu as refeições que ambos mais gostavam. Ela gostava de arroz branco e filet ao molho madeira. Ele gostava de feijoada. Enquanto comiam conversavam banalidades. Ele contava de uma secretária atrevida que havia sido demitida, ela falava da vizinha que havia comprado um cachorro novo que latia a noite toda, incomodando toda a vizinhança. E assim o almoço passou.

Comeram torta de maracujá de sobremesa. Na verdade, ela comeu. Ele não gostava muito de doces, então quando ela terminou a sua, ele ainda não tinha comido um terço da dele. Ela, que amava doces, comeu a dele também, como de costume.

Quando ele estava prestes a pedir a conta, ela já não agüentava mais esperar.

- Por que você não me ama mais?

- Como?

- Por que hoje pela manhã, ao telefone, você não disse que me amava?

- Acho melhor conversarmos sobre isso em outra hora, meu amor.

- Não me chame de meu amor, se não é isso que você sente. Eu quero a verdade. Apenas isso.

E ele começou a falar. E ele falou, falou, falou... E ela chorou, chorou, chorou. Tudo o que ela temia aconteceu. Ele disse que depois desses meses juntos ele percebeu que ela não era tudo o que ele queria. Que ela era muito especial, bonita, inteligente, mas não era a mulher que ele queria pra ser mãe dos filhos dele. E que nas últimas semanas ele tinha descoberto que não a amava como ele pensava amar. Que ele não sentia por ela o que ele pensava sentir. Que confundira com amor um sentimento de conforto de ter uma namorada que ele pudesse apresentar para os amigos.

Depois de ouvir tudo isso ela apenas deu um meio sorriso, de quem já sabia que ia acontecer, estendeu a ele sua mão. Agradeceu o almoço e se foi.

Ela sentia dentro de si que havia errado. Que havia errado muito. Que não tinha sido a mulher que ele queria, e por isso ele a abandonava agora. E sentia também que não havia mais nada que pudesse ser feito.

Ela era orgulhosa demais para tentar reverter a situação. Ele era covarde demais pra dizer a verdade.

Duas semanas depois ele se mudou do bairro, sabe-se lá pra onde. Ela tinha certeza de que ele fizera isso para não ter que encará-la todos os dias ao se cruzarem na rua na hora de irem pro trabalho.

E na terceira semana, como muitos temiam que ela fizesse, ela se matou. Não encontraram cartas de despedida, nem presentes destruídos.

Tudo que encontraram foi um arquivo aberto na tela do seu computador dizendo:

“Ah, se eu tivesse sido homem por mais tempo...”

FIM.
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3 comentários:

Katrinisses disse...

Noss...amiga!!! amei...posso t falar a verdade?? vou ficar com isto na cabeca por uns bons dias...adoro qdo isso acontece, agora vc ta no meu hall da fama(autores q me deixam pensando) com o Kafka(serio), Virginia Woolf e meu amado Rubem Fonseca!!!

Adorei esta nova perspectiva...um Joseph K. mulher...adorei mesmo!!!

e fico puta "como naum pensei nisto antes??" kkkkkkk!! brincadeira!!! bjus

Spider!!!!

Juliana Lemos disse...

me-ni-na! estou boquiaberta! então quer dizer que eu passo um BOM tempo sem vir aqui, e, quando venho, vc me apresenta um texto DIVINO desses?
está perfeito! não precisa acrescentar nenhum detalhe.
e pegando carona com o comentario acima, esse conto me deixou pensando também. tem um pouco (bem pouquinho, calma... eu não pensei em me matar) com algo que eu vivi há um tempo.

parabéns, rebeca!

Katrinisses disse...

corrigindo...naum eh o Joseph K. e sim o Gregor Samsa!!!

bjim

 
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