quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Shakespeare escreveu textos para internet

Não. Você não leu errado. É isso mesmo: Shakespeare, em pleno século XVI escrevia para a internet! E com grande circulação!

Explica-se:
Há uns dois anos atrás recebi pelos correios uma mensagem de um amigo com um texto muito bonito (piegas, mas bonito) atribuído à Shakespeare. Movida pela curiosidade fui procurar saber de qual livro o texto havia sido extraído, ou de qual fragmento. Enfim, fui procurar a fonte do texto.

Não fui movida tanto pela curiosidade de ter em mãos o livro, mas sim pra ver toda uma obra shakesperiana escrita naquele... hmmm... "estilo".

E o resultado das minhas pesquisas? Óbvio! O texto só é encontrado na internet! E em nenhum dos locais onde ele aparece - integralmente ou trechos - a fonte é citada! Apenas o nome do suposto autor, e comentários miguxos da pior qualidade!

Resolvi ir mais fundo com relação à autoria do texto, pois ele tem que ter saído de algum lugar!

Eureka!

O texto original, intitulado "After A While" é de autoria de Veronica A. Shoffstall, em 1971.

No site "The Recovery Emporium" encontrei o poema original, com ©Copyright inclusive, e as seguintes palavras da própria autora:
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"Author's note: This poem has been plagiarized, bastardized, renamed, reworded, redesigned, expanded and reduced. But it is my work, which I wrote at the age of 19 and had published in my college yearbook. Why anyone would want to claim it is beyond me, but for what it's worth, I wrote it, and if I'd known it was going to be this popular, I'd have done a better job of it."
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Pra quem não lê inglês, ela diz:
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"Esse poema foi plagiado, bastardizado, renomeado, reordenado, redesenhado, expandido e reduzido. Mas é o meu trabalho, que eu escrevi aos 19 anos e publiquei no meu livro do ano do colégio. Por que alguém gostaria de reclamá-lo é além de mim, mas a despeito disso eu o escrevi, e se eu soubesse que ele se tornaria tão popular, eu teria feito um trabalho melhor." (eu traduzi da melhor forma que o meu inglês permitiu!)
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Conforme Rosângela Aliberti, o texto foi atribuído a Shakespeare por causa de uma coincidência no último verso de umas das "n" versões que circularam, que diz:

"Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, senão fosse o medo de tentar."

Na obra "Shakespeare de A a Z: livro das citações" da editora L&PM (1999), Carlos Alberto Nunes traduziu o seguinte trecho:
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"Our doubts are traitors and make us lose the good we oft might win by fearing to attempt." (Measure for measure, Act I, Scene IV)

por:

"Não passam de traidoras nossas dúvidas, que às vezes nos privam do que seria nosso se não tivéssemos o receio de tentar." (Medida por medida - Ato I - Cena IV)

Alguma semelhança? Pois é. Não é mera coincidência.

Só acho uma pena não haverem mais sites e pessoas dispostos a desmentirem essas farsas literárias.

Pra encerrar, acrescento minha colaboração à obra de Shakespeare:

"Eu aprendi que kibar textos pela internet e fazer PPS com eles não é legal, e que mais cedo ou mais tarde alguém vai descobrir que ele não é meu. Então, vou reconhecer minha insignificância e junto com ela, a autoria dos textos que eu traduzo."

Até a próxima.
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4 comentários:

Anônimo disse...

amiga tá tudo muito lindo ...sempre um sucesso ...até...
camila baldon

Juliana Lemos disse...

por um instante eu até pensei que shakespeare era moderninho! com mario quintana (e milhoes de outros) fizeram a mesma coisa. ¬¬
o povo gooooooooosta...

Jeea disse...

Rebeca, eu estou com o mesmo problema, recebi um texto pela internet de autoria de Shakespeare e estou procurando e pesquisando e só encontro na internet. O título é Determinismo Genético e inicia assim:
Sempre que uma pessoa afirma, confiantemente, "eu sou assim...", note que ela está simplesmente procurando uma desculpa para um comportamento que ela própria sabe não ser o melhor... conhece algo sobre este texto?

Rebeca Ribeiro disse...

Jeea, não conheço. Mande-me uma parte maior do texto por e-mail que pesquiso. rebeca.rbnr@gmail.com

 
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